quinta-feira, 25 de setembro de 2014


A lógica e a mágica


Eduardo Mattos Cardoso
eduardomattoscardoso@gmail.com


Apenas a lógica cartesiana parece não explicar as coisas que acontecem no nosso planeta. Essa é a lógica fundamentalmente da matemática. Dois mais dois é igual a quatro, certo? Depende. As possibilidades são infinitas, de acordo com quem faz o cálculo. Se houver uma pitada de magia, bom, daí pode acontecer até o milagre da multiplicação. Para alguns isso ocorre facilmente.

O desafio à lógica é constante. Na cena internacional é muito comum isso acontecer. O interminável conflito entre Israel e Palestina é emblemático. Israel massacra palestinos na Faixa de Gaza. Entre estes muitas crianças. Em nome da segurança israelense. Alguns defendem porque é lógica a reação. Quem se posiciona contra Israel é taxado por alguns de antissemita, é lógico.

Para os argentinos a lógica anda longe. Direito internacional é uma coisa. Ajoelhar-se para exploradores é outra. Só faltava a Argentina, que é um país soberano, acatar a decisão de um juiz estadunidense. E ainda, dar bola para previsão de economista que fala em “nervosismo do mercado”.

No Brasil não é diferente. Joaquim Barbosa julgou só um lado da moeda, em nome da imparcialidade, da lógica é claro, e ainda ganhou o título de “herói” nacional. Essa mesma lógica serve para tentar sustentar a ficção. Para o governo atual doze anos de poder transformaram o país numa maravilha. Por que então querem mais quatro se está tudo tão bom?

Mas isso tudo parece de um mundo distante. Na cidade que pode mais isso não acontece. Por aqui a lógica é lei. A mentalidade da lógica sobre rodas, por exemplo, acredita que o meio de transporte rodoviário é o melhor do mundo. Ferrovias e hidrovias são bobagens. Mas quando a lógica não consegue resolver tudo, entra a mágica. A magia faz a prefeitura pagar R$ 2,63 o litro de óleo diesel, quando qualquer reles mortal como eu ou você pagamos apenas R$ 2,34 no mesmo lugar. É a mágica da lógica. Tudo normal, legal e leve! Ou leviano! É uma sopa de números. Eu acrescentaria o $ 171.

Crônica publicada no jornal Fato em Foco do dia 8 de agosto de 2014

Sapo cururu

Eduardo Mattos Cardoso
eduardomattoscardoso@gmail.com


Os sapos estão de plantão em Três Cachoeiras. Pela chance que estão tendo querem participar do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Como tradicionalismo também foi inventado, por que não um anfíbio na tradição? Pelo menos no nome?

Conta-se pela cidade que está para aparecer um novo CTG. Ou algum já existente pode mudar de nome. Pode ser uma adaptação aos novos tempos. Vanguarda é importante. E oportunidade também.

Mas os sapos estão cururus. Nunca na história de Três Cachoeiras imaginavam que seu território estaria tão perto do progresso. E que fariam parte deste. Mas estão com dúvida sobre o que pode acontecer.

Essa inquietação se deve aos acontecimentos recentes. Cada vez mais não entendem nada. Antes da Invenção de Três Cachoeiras, ocorrida em 1º de janeiro de 2013, ouviam falar em inauguração de obra inacabada. Agora, em seu pleno território, assistiram a inauguração do vazio. Mas ficaram furiosos, pois vazio é onde não têm nada. Esqueceram que em banhado tem habitante.

Pelo que me lembro da última enchente, o “banhado do vazio” ficou quase todo cheio. Cheio de água. Minha ingenuidade aflorou: o que levou nosso patrãozinho municipal a fazer essa escolha?

Algumas alternativas são possíveis. Mas é difícil afirmar. Simples é enchergar que comprar banhado a “preço de ouro” é fácil. Até o Bode Zé consegue. E fazer casca de asfalto com financiamento a juros indecentes, até eu conseguiria. Mas não faria.

Fazer discurso para sapos, lunáticos e fanáticos na inauguração do “banhado do vazio” é moleza. O difícil é realização descente que mude significativamente a vida das pessoas para melhor. O que não aconteceu até agora. É entender o significado de competência, ética e moral. E ponto.

De resto, fazer xorôrô, falar em perseguição, entre outros truques fantasmagóricos é empulhação e desvio de foco. Depois de um ano e meio alguma coisa tem que aparecer. Mas isso é da lógica, do óbvio. Não é nenhuma novidade quando o dinheiro está sobrando.

Crônica publicada no jornal Fato em Foco do dia 01 de agosto de 2014

Semana pedagógica

Eduardo Mattos Cardoso

eduardomattoscardoso@gmail.com


Num tempo já quase distante, recesso escolar era sinônimo de descanso absoluto. Hoje não é mais. Nesta semana em que crianças e adolescentes das redes municipal e estadual de educação estão de folga, nós professores não estamos. Tivemos a Semana pedagógica em Três Cachoeiras, numa parceria entre o nosso município e o de Terra de Areia.

Muitas vezes é o tempo que se têm para pensar educação, pois durante o resto do ano em dias letivos quase não respiramos devido o acúmulo de tarefas. Mas pode ser um momento de fortalecimento além da pura reflexão. Afinal, educação e ensino se misturam. A primeira deveria ser fundamentalmente enraizada pela família. Não é o que vemos, pois cada vez mais se delega à escola uma tarefa da família. É a terceirização da educação. Vamos lá. Os desafios são babilônicos.

Nesses dias tivemos palestras, apresentações artísticas e oficinas temáticas. A parte motivacional nas palestras pareceu predominante. Talvez não seja excesso mas sim necessidade. O fardo que a maioria dos professores carregam é pesado demais. E o reconhecimento social e financeiro fica aquém do que deve ser. Mas a luta continua.

Alguns momentos do evento me entusiasmaram mais. No primeiro dia a participação do Gilmar, o eletricista cego, me alegrou bastante. Na terça-feira tivemos palestras com parte motivacional e dinâmicas. Entendo a necessidade desse tipo de atividade mas ainda fico “boiando” nesses momentos. A quarta-feira foi mais inspiradora. A aula que assisti do professor Ático Chassot foi muito boa. Uma lavada de alma. Sou professor, mas é bom voltar a ser aluno diante de um bom mestre.

Com o professor Chassot pude interagir. Pedi que explicasse sua proposta de que os professores “ensinem menos”. O professor Chassot foi categórico em sua resposta: “é ensinar menos conteúdo”. Gostei. Quando fazemos e pensamos educação temos que fazer escolhas. Essa é uma delas. A vida é feita disso. Mas a semana não parou por aí. Na próxima conto o resto!

Crônica publicada no jornal Fato em Foco do dia 25 julho de 2014

sexta-feira, 18 de julho de 2014


Bestialização digital

Eduardo Mattos Cardoso
eduardomattoscardoso@gmail.com

Pensando no assunto “bestialização” lembrei do livro “Os Bestializados”, do historiador José Murilo de Carvalho. Neste livro o autor aborda o processo de proclamação da república em 1889, que ficou marcado ou inventado para a História brasileira com o 15 de novembro quando o Brasil passou de monarquia para república.

A principal contribuição de José Murilo de Carvalho nesta obra foi a constatação através de documentos que o “povo” simplesmente não participou da proclamação da república. Para José Murilo, o povo ficou “bestializado” com o que aconteceu, pois nem sabia o que estava acontecendo.

Invariavelmente na História brasileira foi quase sempre assim, ou seja, o “povo” - designação genérica da maioria da população – geralmente só assiste o que acontece no nosso país em termos políticos e consequentemente no que diz respeito ao que é público.

Alguns tentam relativizar com explicações de lugar-comum, para não dizer tolas. Expressões do tipo “cada um tem a sua opinião” são cada vez mais arrotadas em nome de uma individualidade travestida de padronização patética.

Antes se dizia que a padronização das mentes se devia a televisão. E que a internet e consequentemente o mundo digital levariam o ser humano a liberdade. Com as redes sociais o alardeamento de que o monopólio da informação ou desinformação tinha acabado se alastraram. As redes sociais seriam uma forma muito eficaz de mobilização social.

As manifestações de 2013 mostraram que realmente para mobilização as redes servem. O que não ficou claro era o que queriam reivindicar, ou seja, muitos foram para a rua por que muitos estavam indo para a rua, por que era o momento, mesmo sem saber direito o que estavam fazendo nas mesmas.

Mobilização com alienação para que serve? É evidente que a tecnologia é uma arma poderosa de transformação política e social se bem aproveitada. Por enquanto fico com dúvida. O deslumbramento com bobagens diante desse mundo digital/virtual está levando algumas pessoas à “bestialização” comportamental. Por onde a gente anda – casa, trabalho, escola, festa, etc. - quase sempre tem um chato querendo tirar “fotinho” ou mostrar “videozinho” em seus aparelhos e redes. Como se todo mundo gostasse disso.

Crônica publicada no jornal Fato em Foco do dia 18 de julho de 2014

Educação, eleição e discursos vazios

Eduardo Mattos Cardoso
eduardomattoscardoso@gmail.com

A seleção brasileira perdeu a semifinal vergonhosamente. Felipão assumiu. Ponto. Continua o evento. Segue a vida. O futebol só é sério para quem vive dele. Não é meu caso, nem da maioria do povo brasileiro. Coisa séria é eleição. Pelo menos deveria. O processo já começou.

Temos três meses pela frente para avaliar e escolher os melhores governantes e legisladores para o país e para o estado. Agora é a vez do “jogo” político. Esse jogo não poderia ser perdido nunca. No entanto, os indicativos não são muito animadores. Os discursos iniciais dos candidatos novamente são líquidos, ou seja, não se comprometem com nada, não afirmam nada. Em relação à educação, infelizmente, os discursos vazios continuam.

Sabemos que a “chave do cofre” está na mão do governo federal. Sem dinheiro não se muda. Mas dinheiro de verdade. Num país de economia capitalista como o nosso falar em melhora sem dinheiro é piada pronta. Antes da aprovação do novo PNE - Plano Nacional de Educação - que tramitou “apenas” por quatro anos no Congresso Nacional, se noticiava que se investia menos que 5% do PIB em educação. Tão logo foi sancionada a nova lei, os números mudaram como num passe de mágica para mais de 6%, exatamente 6,4% segundo informação oficial.

O novo PNE estabelece metas em investimento. A partir de sua aprovação prevê que em cinco anos se invista 7% do PIB em educação e ao final de dez anos 10%. Como maquiar números no Brasil é uma especialidade, não acredito que na prática isso ocorra. Não é pessimismo. É constatação de quem há muitos anos acompanha a área e sente na pele o faz de conta de investimento, paralelo ao aumento do caos educacional.

É preciso dizer com coragem que existe duas categorias de educação básica pública. A de “primeira classe” é bancada diretamente pela união através dos colégios militares, de aplicação das universidades federais e os institutos federais. O resto, estaduais e municipais, guardadas algumas raras exceções, são de “segunda classe”. Essas, que são a esmagadora maioria, estão abandonadas.

Crônica publicada no jornal Fato em Foco do dia 11 de julho de 2014

Tempos de escola

Eduardo Mattos Cardoso
eduardomattoscardoso@gmail.com

Há vinte anos comecei a cursar o Segundo Grau, que hoje se chama Ensino Médio. Era um privilégio ainda. Em 1994 cursar tal nível de educação não era obrigatório. Mas era necessário. A oferta de empregos não era como hoje. Era uma oportunidade que tínhamos de seguir a vida, continuar estudando e melhorá-la.

Tempo diferente. Geração peculiar aquela. Além de necessidades tínhamos ideias, paixões e vontade de mudar. A tecnologia era restrita. O computador ainda era de “outro mundo”. Internet muito mais. Parece que éramos menos “alienados” e controlados do que os jovens de hoje. Percepção ou constatação?

Os tempos e espaços pareciam outros, embora a escola, salas de aula e alguns professores e funcionários sejam os mesmos até hoje quando retornei como professor. Saudosismo? Pode ser. Mas era bom, como hoje também, guardados os gigantescos desafios da carreira e da educação.

Estudei os três anos do Segundo Grau usando a bicicleta como meio de transporte. Todos os dias, salvo algum de temporal muito severo, me deslocava do Santo Anjo até Três Cachoeiras pedalando. Mas geralmente não fazia essa “viagem” sozinho. Contava com a companhia dos amigos Mauro e Maurício que também encaravam a aventura diária de “magrela”. A parceria estreitava a relação de amizade.

Estudávamos à tarde. Naquele ano só tinha nesse turno. O almoço tinha que ser reforçado, pois não tinha merenda para as turmas daquele nível. Mas recordo com muito carinho das “tias” da merenda que sempre que possível nos davam algumas bolachas ou o que sobrava da merenda do dia.

Em 1996, quando me formei, a educação começava a passar por mudanças. Foi aprovada a LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, através da lei 9.396 do mesmo ano. De lá para cá sofreu alterações significativas como, por exemplo, a obrigatoriedade da matrícula dos 4 aos 17 anos de idade.

Há vinte anos eu era aluno. Ia à escola por vontade, sem obrigação. Hoje assisto, como professor, a obrigatoriedade sem comprometimento, com ônibus na porta de casa e merenda digna todos os dias para todos os alunos, entre outras facilidades. Será que vai dar certo?

Crônica publicada no jornal Fato em Foco do dia 04 de julho de 2014

Um homem perigoso

Eduardo Mattos Cardoso
eduardomattoscardoso@gmail.com

Na última terça-feira, 24 de junho de 2014, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul deu continuidade ao projeto Gaúchos da História. O personagem desta vez foi Leonel Brizola, o estadista da educação. O seminário teve como tema “Pensamento, legado político e social do grande líder trabalhista gaúcho” e contou com painelistas e debatedores políticos e jornalistas. A data é pela passagem de dez anos da morte de Brizola ocorrida em 2004.

Não é de agora que “os donos do poder” tentam “avacalhar” a política. Depois que o PT gostou “do jogo jogado” quando chegou ao poder em 2003, ficou fácil e confortável para a mídia dominante arrotar o tempo todo que “político é tudo igual”. Lula que representava a mudança confirmou isso. Caímos no conto do novo estadista que talvez pelas condições em que foi gestado nunca poderia ser tal.

Quando Lula ainda parecia autêntico de esquerda, Brizola aceitou ser seu vice. Era tarde. O PT de esquerda não poderia chegar ao poder. Muito menos Brizola, que segundo “os donos do poder”, era a verdadeira ameaça. Ingenuidade pensar que quem manda no Brasil “dorme de touca”. O serviço secreto dos EUA anotava no início da década de 1960: “Esse governador expulsou duas empresas nossas, de telefonia e energia elétrica, e ainda construiu escolas por todo estado. Leonel Brizola é perigoso”.

Trabalhismo vem de trabalho. Era a marca de Brizola, João Goulart e Getúlio Vargas. Mas no fim da década de 1970, com a abertura política, surgia um novo partido em nome do trabalho, o Partido dos Trabalhadores. As afirmações de Léo de Almeida Neves (Deputado cassado em 1969 pela Ditadura) sobre o período são interessantes: “Entrou em ação o “mago do regime”, o estrategista General Golbery do Couto e Silva. Houve tolerância para as reivindicações operárias do ABC paulista, conduzidas por Luiz Inácio Lula da Silva, e ao robustecimento de um sindicalismo sem compromissos com o trabalhismo, e desvinculado de Brizola. Depois, serviram-se da ex-deputada Ivete Vargas, cujo marido trabalhava para Golbery, a fim de aprovar um simulacro de partido de apoio ao sistema vigente, já nos seus estertores. Manobrando com a frágil Justiça Eleitoral da ocasião, conseguiram registrar um artificial PTB, solidário ao governo inclusive nas votações no Congresso”.

Brizola e o autêntico trabalhismo, a partir de um novo partido, teriam chance?

Crônica publicada no jornal Fato em Foco no dia 27 de junho de 2014