sexta-feira, 28 de junho de 2013

Prioridades

O prefeito municipal admitiu hoje (28 de Junho de 2013 em entrevista a rádio local) um gasto direto da Prefeitura na Festa do Caminhoneiro de um valor em torno de R$ 25.000,00 a R$ 30.000,00.

Mas acenou que a Câmara de Vereadores pode ajudar também. Segundo informações de vereadores isso é possível porque nosso legislativo dispõe atualmente de mais de meio milhão de reais em caixa.

Pouca gente sabe disso.

E as manifestações de nosso lideres de executivo e legislativo sobre o momento que o Brasil vive são patéticas e hipócritas: dizem que "o povo esta cansado de ser enganado, enrolado"... ora, ora, como se Três Cachoeiras fosse um belo exemplo. Esqueceram suas promessas? Só lembram de festa? E o resto?

Enquanto dinheiro para festa tem, necessidades básicas não são atendidas.

Senhores gestores, andem pelas ruas do município e ouçam os moradores.

E vejam, entre outros problemas, o exemplo da rua Olívio Nunes Cardoso no Santo Anjo:


Maravilha de rua!

Para festa têm!

Mas o que é mesmo prioridade para os gestores municipais?




segunda-feira, 24 de junho de 2013



CPI da “Patrola”: protesto!
Eduardo Mattos Cardoso

Professor Mestre em História


Até que enfim alguns brasileiros estão usando o “feicibúqui” para algo útil: as manifestações pelo Brasil a fora é prova disso. Segundo os conservadores, nas grandes cidades sempre tem um bando de jovens que não tem o que fazer. Aí vão para rua fazer baderna e protestar pelo que nem sabem! Para os conservadores nosso país é perfeito. Pra eles. O resto que se dane!

Para o sociólogo espanhol Manuel Castells o modelo de democracia representativa já era. Reafirmou isso no “Fronteiras do Pensamento”, ciclo de conferências anual que reúne a “elite intelectual” do Rio Grande do Sul (ocorre em outras cidades também). Segundo Castells, o sentimento de indignação e revolta diante de uma injustiça provoca a articulação das pessoas pelas redes. Já que nossos “representantes” não nos representam o que resta é protestar.

A cidade de Três Cachoeiras não é um grande centro urbano, é verdade. Mas seus cidadãos tem a disposição os meios necessários para participar autonomamente. O difícil é fazer circular informação útil nas redes sociais. Como as decisões e movimentos políticos, por exemplo. A CPI da “Patrola” é um desses casos encobertos. Custou a sair. Foi instalada essa semana. Pela regra deve ter 3 ou 5 membros. E ter representação de todos os partidos. Nossa Câmara de Vereadores tem os seguintes partidos: PP, PTB, PMDB, PDT E PT. A opção foi por 5 membros. Assim, como temos 5 partidos diferentes no legislativo, deveria ser composta por um vereador de cada partido. Deveria! Apareceu um parecer jurídico descabido e enrolado. O PT ficou de fora. Os ditados populares são sempre atuais: “quem não deve não teme”.

Como a “cidade que pode mais” é “perfeita” usam as redes sociais para, na maioria das vezes, tolice. Fazer circular informação que interessa e fiscalizar a política e suas determinações é bobagem. O legal é fazer circular “fotinhos”, “curtir” babaquices, xingar, despejar raiva e ignorância. Como instrumento útil de mobilização social e divulgação de verdades pouco é usado. Passar da indignação pessoal à ação coletiva é um processo de comunicação. E as redes estão aí também para isso. Mas não pode ficar apenas no virtual. Tem que aparecer nos espaços públicos. Conclui Castells que “se querem modificar políticas, não basta somente as críticas na internet. É preciso tornar-se visível, desafiar a ordem estabelecida e forçar o diálogo”.

terça-feira, 18 de junho de 2013

A força dos indignados do Brasil
Por Juremir Machado da Silva

O Brasil está na rua e muita gente nada está entendendo.

Por que um país com déficit de hospital deve financiar estádios de futebol?

Por que mesmo para os estádios privados um país com falta de leitos em hospitais deve emprestar dinheiro público a juros camaradas e indecentes?

Por que um país aceita mudar suas leis para contentar a Fifa?

Por que um país que não pode manter as passagens de ônibus acessíveis à maioria da população gasta dinheiro para se “promover lá fora”?

Boa parte da mídia não está entendendo os nossos indignados.

As críticas ao vandalismo dos manifestantes são uma maneira de esconder o vandalismo do aumento das passagens, a violência das polícias e a imoralidade das transferências de recursos públicos para empreiteiras e empresários.

A presidente Dilma foi vaiada em Brasília por ser conivente com isso.

A direita acha que é saudade dos tucanos.

Está enganada.

Os indignados querem andar para frente.

O Brasil está vivendo um grande embate entre progressistas e conservadores.

Os conservadores estão por trás do projeto de lei dos nascituros, da tentativa de impedir a demarcação das terras indígenas, da lei de internação involuntária, sem aval de um juiz, de consumidores de drogas, da investida contra as atribuições investigativas do Ministério Público, das manobras para flexibilizar a lei da Ficha Limpa e de muita coisa desse gênero.

Os conservadores estão em todos os partidos, inclusive no PT.

Todos com aval da boa parte da mídia.

Conservadores recorrem à velha retórica macartista contra a “terrorista”.

Seria cômico não fosse trágico.

Nas ruas, os indignados não sentem falta da ditadura militar. Querem é mais democracia. Por que não podem se manifestar sem enfrentar balas de borracha? Por que devem apanhar? Por que devem ser dispersados?

Há relatos de ações provocativas de policiais à paisana quebrando o mobiliário urbano para colocar a culpa nas costas dos indignados e justificar a repressão.

Meio século depois, os indignados querem completar as reformas de base de Jango. E, mais uma vez, os conservadores querem impedir esse avanço.

Em 1964, parte da esquerda tentou moderar os desejos da massa.

Hoje, o PT, instalado no poder, não sabe o que fazer com tantos indignados.

E em muitos lugares, como em São Paulo, manda reprimir duramente.

Os indignados estão certos.

Estão cansados de esperar uma explicação: por que há dinheiro para estádios de futebol e não para hospitais, escolas e passes livres de transporte público?

O que o Brasil vai ganhar enriquecendo a Fifa?

Para que servirá o elefante branco que é o estádio Mané Garrincha?

O povo não é bobo, não acredita mais na Globo, dizem muitos jovens.

Nem na parceira da Globo com o governo do PT.

Nem na falta de explicações dos governos.

Nem nas planilhas das empresas de ônibus.

A violência dos indignados é um sintoma: sinaliza uma insatisfação que já não pode ser contida, não pode ser abafada, não pode ser ignorada.

Uma democracia não pode ser vivida como paz dos cemitérios.

A direita adoraria estar em 1964 para dar um golpe a silenciar a indignação.

Desta vez, seria certamente pisoteada.

Que tempos!

A esquerda financia o “crack” do povo.

Assim como Médici, o mais hediondo e violento ditador brasileiros de todos os tempos, usava o futebol como ópio da massa em 1970.

Pra frente, Brasil!





Sociedade justa
Eduardo Mattos Cardoso

Professor Mestre em História


Vivemos numa sociedade injusta. Alguns precisam se esforçar para enxergar o óbvio. É a tal da nuvem. Quando aparece um livro bom, que nos ajuda a clarear as coisas, pouco circula. Além da miséria material, a miséria intelectual campeia solta. É mais fácil controlar povo “burro”. Mas vale a referência: “A sociedade justa e seus inimigos” (Tomo Editorial, 2012) organizado por Antonio David Cattani (Doutor - Professor de Sociologia, UFRGS) e Marcelo Ramos Oliveira (Auditor-fiscal da Receita Federal do Brasil).

Discutir que a riqueza concentrada é um dos fundamentos da injustiça e contribui para naturalizar a dominação e a subserviência não interessa aos privilegiados. Segundo Cattani, brasileiros endinheirados possuem milhares de residências em Miami, apartamentos de luxo em Londres e Paris e gastam numa noite num cassino de Punta del Este o equivalente à folha de pagamento de centenas de assalariados.

Riqueza está sempre associada às realizações bem-sucedidas, ao talento e ao mérito; seguindo essa lógica, os ricos fizeram por merecer sua posse: “você tem, você merece”. Será verdade? Para os autores, uma das fontes de riqueza no Brasil é o sistema tributário. Os governos cobram cada vez mais impostos indiretos (sobre o consumo) e negligenciam o tributo direto (sobre o lucro). Assim, quem paga mais são os mais pobres. Isso é injustiça fiscal pura.

No Brasil não existe só bolsa família. Existe também a “bolsa rico”. Parcela significativa da dívida externa é de propriedade de capitais brasileiros irregularmente desviados para o exterior e depositados nos paraísos fiscais, que voltam para o Brasil para serem aplicados a juros maiores e sem pagamento de IR (Imposto de Renda) sobre o lucro. O Equador fez uma auditoria sobre a dívida: além de diminuir os valores, 5% dos credores simplesmente nunca apareceram. Coisa de presidente que não tem o que fazer.

Pessoa Física não paga IR na distribuição de lucros de empresas. Mas qualquer trabalhador que ganha mais que três salários mínimos paga. Para os autores, “no Brasil as pessoas podem ficar ricas sem pagar impostos”. E ainda, existem os Paraísos Fiscais. Estudo do FMI estima que apenas as Ilhas Cayman mantinham depósitos da ordem de US$1,7 trilhão no final de 2008. A Previdência é outro fator de desigualdade. Concluem que justiça social se faz com corte de privilégios, Imposto Sobre Grandes Fortunas (IGF) que é previsto na Constituição Federal, auditoria da dívida, tributação progressiva, revisão da legislação, fim da Guerra fiscal entre Estados, controle de capitais entre outros mecanismos. Vale a leitura.

Artigo publicado no Jornal Fato em Foco no dia 14/06/2013

quinta-feira, 6 de junho de 2013


Legislar (des)educa?
Eduardo Mattos Cardoso

Professor Mestre em História


Nossa Câmara de Vereadores é original na região. Essa semana se renovou. Quer dizer, mais ou menos. Um é novidade no legislativo. Já o outro é velho conhecido. Deu empate. Mas são novos atores. O povo gosta do novo. Mesmo que seja velho. É a regra de mercado. Assim, ouvir uma sessão da Câmara pelo rádio já é bom. Agora, assistir pessoalmente é emocionante.

A final, nosso legislativo municipal educa ou deseduca? Nossos legisladores são educados ou mal educados. Há controvérsias! Em tese, além de legislar e fiscalizar, a Câmara de Vereadores é um lugar de fomento à educação em seus múltiplos sentidos. Elenco dois fundamentais: primeiro a educação escolar de ensino e pesquisa; segundo a educação no sentido de ser educado, polido, cordial, ser honesto e por aí vai.

Os observadores atentos conhecem nossos representantes. Mas ao vivo presenciamos cenas apaixonadas e grotescas. As trocas de olhares, as provocações. Ah, a participação da plateia não é possível. Mas sempre se ouve piadinhas, comentários em voz baixa. No andar dos discursos acalorados escapa um “mentiroso” mais alto. Opa! Um instante de silêncio. Será uma simples manifestação ou má educação pura?

Arrisco a dizer que é falta de educação. Não aprenderam em casa. E na casa do povo os “arautos da verdade absoluta” são estimulados. Como? Entra em cena o Senhor “Lâmpida”, estufa, bate no peito e diz: “não é perciso estudo pra cê vereadô”. É um belo exemplo! Os espectadores ficam atônitos. Não sabem o que pensar por um momento. Coçam a cabeça! Exclamam e dizem baixinho: “é, tem muita escola mesmo, pra cê rico estudá é bobagê. Olha lí o fulano, o empresário matudo, não estudô e é rico”.

O capítulo foi extenso. Antes o Senhor “Múmia” se apresentou. Pela sua fala, educação parece não ter muita importância também. Títulos sim. Ainda, se não fosse ele não existiria nada, nem Prefeitura, nem Câmara de Vereadores, prédios, casas... Ou seja, parece ter sido o inventor da cidade. Mas isso rende outra reflexão oportunamente.

Além dos novos personagens, mais uma novidade: o pedido de abertura de CPI (comissão parlamentar de inquérito) por parte da oposição para averiguar o que ouve realmente no episódio da “patrola” em terreno de particular. E a situação de plantão, como sempre, enrolando o tempo todo. É dura a vida de quem tenta sustentar o insustentável. O Senhor “Coronelzinho”, malandro boa pinta intitulado, fala e nem suas palavras se entende. E a Sra. Bombril não fica nem constrangida, mas com calor. A temperatura aumentou, chega por hoje.

sexta-feira, 31 de maio de 2013


Democracia e revolução europeia

Tarso Genro*


O grande movimento que deverá ser feito pelos oligopólios financeiros globais que tutelam as políticas dos países em crise será, processualmente, transferir os ônus da “recuperação” aos países pobres e aos chamados “emergentes”. Não somente através de um desequilíbrio ainda maior, no intercâmbio comercial, mas também desencadeando ondas especulativas sobre as economias que não consigam colocar sob controle sua dívida pública.


Estes oligopólios vão se esmerar – a partir da insegurança generalizada já em curso – em provocar crises de governabilidade instigando, a partir delas, mais uma onda de privatizações, cujos recursos se “esfumarão” rapidamente, como ocorreu aqui no Brasil na era FHC. Ao mesmo tempo irão financiar e incentivar governos tecnocráticos, “choques” de gestão e mais destruição das funções públicas do Estado, como já está ocorrendo em Portugal, na Grécia e na Espanha.


O impasse político gerado pela crise reergueu a Alemanha à condição de potência política de primeira grandeza e ainda não demonstrou todo o seu potencial destrutivo, nem na Europa nem na América Latina. No Brasil, porém, a centro-direita já manifestou que “aceita” o desafio de representar a “saída” desejada pelos credores da dívida pública global. O candidato Aécio Neves colocou na sua agenda a defesa da era FHC, inclusive para sustentar novas privatizações, sinceridade que visa, não só provocar a formação de um bloco neoliberal e conservador, no seu entorno, mas também oferecer o Brasil como território disponível para assimilar aquela transferência da crise.


Trata-se, na Europa, de uma situação aparentemente sem saída, pois as classes trabalhadoras dos países mais atingidos, os setores médios, as empresas endividadas – premidos por uma situação que ameaça o financiamento estatal e os direitos sociais e do “Welfare”- nem conseguem maiorias eleitorais para formar governos de oposição à dogmática neoliberal, nem conseguem constituir um bloco social de caráter contestatório, capaz de por em risco o atual regime do capital. Ou seja: no enfrentamento da crise, nem reforma neo-socialdemocrata, nem revolução social novo tipo, até agora.


Como esta situação de bloqueio às conquistas da socialdemocracia europeia vai interferir na democracia política, com consequências em todo o mundo, ainda não se sabe. Proponho-me, aqui, a levantar algumas hipóteses, para contribuir com o debate sobre a nossa questão democrática, no interior da esquerda que defende a necessidade de governar dentro da ordem democrática e que isso, não só é válido, mas é um “front” elementar para bloquear os avanços da pior direita, que pode levar o mundo a uma nova ordem neofascista.


Entendo que o fato político mais marcante deste período é a subjugação da França pela Alemanha, quebrando as esperanças de um vasto contingente popular de esquerda e de centro-esquerda – algo que vai de Hollande a Mélenchon – que esperava por parte do governo Hollande um processo restaurativo dos direitos e benefícios que vinham sendo sucateados pelo governo Sarkozi, que levou este à derrota eleitoral. Algo de bem significativo -em termos político-eleitorais – apresentou-se naquele cenário, com um crescimento eleitoral expressivo, à direita à esquerda da socialdemocracia tradicional, já demonstrando a emergência de inconformismo radicalizado com os partidos da ordem que se renderam à Alemanha.


Entendo que o presidente Hollande pretendia, por convicção e necessidade política, restaurar o pacto socialdemocrata, esquecendo que ele fora erguido sob pilares sem fundo, o que frustrou as expectativas sobre o seu governo. Nem foram encaminhadas medidas alternativas de longo curso, para organizar um novo modelo de bem-estar que, pelo menos, repartisse os sacrifícios necessários para sair da crise. Sair da crise dentro do regime do capital, diga-se de passagem, pois ninguém com força política real na França estava defendendo, por exemplo, uma nova onda de nacionalizações ou a estatização dos bancos, com ocorreu na era Mitterrand.


Aqui reside, na minha opinião, a questão-chave. O que devemos nos perguntar é se, moldada a União Europeia tal qual foi moldada, Hollande poderia fazer reformas “pela esquerda” sem romper com União. Ou, ainda, sem usar “medidas de exceção” no terreno econômico (como aumentar o déficit público, exigir financiamento para os governos e empresas, não para os bancos privados), para proteger especialmente as pequenas e médias empresas, os empregos, bem como distribuir a proteção social mínima, necessária em momentos agudos de desmantelamento social, como está ocorrendo nos principais países do euro.


O que Hollande não fez a União Europeia fez, pois o que se observou nas saídas engendradas para a crise – por parte das autoridades da União Europeia – foi precisamente a declaração de uma emergência política, com um “estado de exceção” não declarado, para a tomada de decisões. E isso foi feito a partir de um “constitucionalismo de urgência”, no qual as regras gerais da União foram subjugadas por decisões intergovernamentais, bancadas pelo Banco Central Europeu.


Em especial estas medidas foram orientadas pela política nacional alemã, pois, de um só golpe, as medidas de austeridade (de caráter “excepcional”) sequestraram a soberania política dos países em crise e interferiram duramente nos seus orçamentos: “os perdedores, até o momento, neste processo, são os parlamentos, tanto os nacionais, como o Parlamento Europeu.” (Carlos Closa, “El Estado da Unión Europea”, El fracaso de la austeridad, Fundación Alternativas, 2012, pg.24). Resultado: o sequestro da política, que esvaziou o sr. Hollande, foi capitalizado na ação política alemã, sob o comando da sra. Merkell.


Em síntese: a “exceção”, com o nome de “intergovernamentalismo” já começou, comandada pela direita alemã, sem que sejam consideradas as consequências para o projeto democrático europeu e os seus efeitos destrutivos sobre a juventude, os idosos, os aposentados, os trabalhadores do setor público, os precários e intermitentes, os imigrantes e os desempregados. O que farão os cidadãos europeus, quando descobrirem que não adianta mudar governos? Eis a pergunta recentemente lançada pelo professor Boaventura Souza Santos, em artigo memorável.


Sugiro, como agenda para debate, que o impasse europeu poderá desdobrar-se em três possibilidades: 1. as reformas de austeridade são implantadas e forma-se a famosa sociedade dos três terços, como vinha sendo encaminhado aqui no Brasil, pela saudosa aliança tucano-pefelista (um terço incluído e feliz, um terço que come mais ou menos e não se educa e o outro terço nos guetos sociais das periferia, tratados predominantemente pela Polícia); 2. ou as reformas de austeridade se desdobrarão por muito tempo, comandadas por governos tecnocráticos semi-fascistas, com sustentação nas mídias e fortes repressões seletivas contra os imigrantes e miseráveis, com o apoio envergonhado das classes médias (nenhum dos blocos em confronto, nesta hipótese, tem força para impor-se); 3. ou processa-se um novo episódio da revolução social europeia, que se arrasta desde a Comuna de Paris, reinventando-se ali algo como um novo pacto “socialista-social-democrata” -um novo contrato social europeu – para enfrentar a direita alemã (com seus tentáculos tecnocráticos e políticos em todos os países europeus) cuja pior face já vem crescendo no interior da própria Alemanha: o neonazismo. Um bloco que suponha que preservação da democracia só ocorrerá com o sequestro, desta feita, da economia pela política.


Isso tem muito a ver conosco, que a duros custos estamos remando contra a maré: criando empregos, reestruturado o setor público, contratando servidores, investindo incomparavelmente mais em inovação, ciência e tecnologia, fortalecendo o mercado interno ao incluir no consumo milhões de famílias. Mesmo conciliando com o domínio pleno do capital financeiro sobre a economia global – o que inclusive Cuba vem tentando fazer e é impedida pelo bloqueio político e econômico dos Estados Unidos – o Brasil constitui uma ameaça mundial às saídas ofertadas pela dogmática neoliberal, porque mostra que as opções no terreno da política podem fazer frente à visão de que “não existem alternativas.”


É visível, porém, que um certo tipo de desenvolvimento que desafia e se contrapõe às leis de bronze do capital financeiro pode perdurar, com o mesmo bloco de forças que lhe dão sustentação, pelo tempo do cumprimento das tarefas que impulsionaram a sua formação. E que nos próximos cinco anos, certamente, nosso modelo atingirá o apogeu e a sociedade brasileira não será “inteiramente outra”, mas terá uma estrutura de classes e novos sujeitos sociais e políticos novos.


Milhões de pessoas estarão no mundo da política, dos negócios, dos movimentos sociais, na intelectualidade acadêmica, à frente das técnicas de indústria e da inteligência, indiferentes à memória política do processo de mudanças que o país sofreu. A partir daí os desafios serão outros, mais complexos e difíceis de resolver dentro do sistema político atual, com a fragmentação federativa ainda mais exposta e com um sistema tributário que funcionará de forma mais arcaica do que nos dias de hoje.


O difícil sistema de alianças que trouxe o Brasil até hoje dá sinais de cansaço, não porque os políticos são vilões ou corrompidos, até porque a taxa de vilania e corrupção, em cada época, é mais ou menos a mesma. Ela adquire é tinturas diferentes, desperta interesse ou alimenta indiferença na grande mídia, segundo seus interesses conjunturais (onde estão as cobranças para o julgamento do mensalão mineiro?). Os processos de corrupção no Estado, é elementar, são dependentes das formas pelas quais se realiza a acumulação de capital e como esta reflete inclusive no financiamento das mídias, com as suas regras “morais” mais, ou menos rígidas. Na era do capitalismo financeiro global os multimilionários esquemas de corrupção se transladaram das relações da burguesia industrial com Estado, para as relações diretas da burguesia financeira com o Estado.


O sistema de alianças dá sinais de cansaço, porque as mudanças no sistema tributário, a fragmentação federativa e a necessidade da reforma política, despertam reações diferentes nos distintos grupos de classes e nas diferentes regiões do país. Esta fadiga dos metais imobiliza as bases parlamentares, proporcionando que grupos de parlamentares troquem de posições em cada tema, sem nexo com as suas bancadas e com os seus compromissos de fidelidade ao governo ou à plataforma oposicionista.


Enquanto na Europa o tecido político dominante cumpre o seu papel de transmissor do programa do Banco Central Europeu, no Brasil este mesmo tecido fragmenta-se porque não mais corresponde aos desafios políticos que os partidos devem enfrentar, em nome das suas bases sociais e regionais: enfrentá-los para o país completar seu ciclo de mudanças, capazes de nos integrar no mundo, no polo de resistência a um neoliberalismo agônico, mas, por isso mesmo, mais capaz de radicalizar os ataques à democracia, para destruir as conquistas históricas do conjunto das classes trabalhadoras no século passado.


Creio que a esquerda brasileira – parlamentar ou extra-parlamentar – socialista, comunista, socialdemocrata, ou simplesmente republicano-democrática – deveria se unir em torno de um amplo movimento político e social para preparar um calendário de lutas, com um programa mínimo muito simples, de resistência democrática ao impasse que a Europa neoliberal está apresentando ao mundo: novos marcos regulatórios para democratizar o acesso à comunicação e garantir o direito à livre circulação da opinião; reforma política, no mínimo para acabar com o financiamento privado nas eleições e valorizar os partidos através da votação em lista; reforma do pacto federativo, principalmente tributário, para reduzir drasticamente as desigualdades sociais e regionais.


Estou tentado a pensar que se não conseguirmos avançar, nos anos imediatos, nesta agenda democrática de resistência, os avanços que tivemos até agora poderão ser revertidos, porque sabemos muito bem: o nosso centro do espectro político não é majoritariamente programático, mas vincula-se a um complexo de conveniências, que não raro lhe aproximam da pior direita, tanto neoliberal, como autoritária.


(*) Governador do Estado do Rio Grande do Sul.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Os donos do poder

Eduardo Mattos Cardoso
Professor Mestre em História
           
O título de hoje faz referência a uma obra essencial para a História, a Sociologia, a política e o Direito, entre outras áreas do conhecimento: Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro, de Raymundo Faoro. O original é de 1958, ano que os intelectuais brasileiros descobriram Max Weber. Mais de meio século se passou, mas o livro de Faoro além de instigante é instrumento importante para entendermos nossa sociedade atual.
Faoro foi na contramão da interpretação marxista da sociedade. Nem tudo se explicaria pela luta de classes. Segundo o autor, um sistema de forças políticas paira acima das classes. E é representado por uma camada de pessoas influentes que muda e se renova, mas não representa a nação, muito menos o povo. A herança portuguesa que viajou até Getúlio Vargas (período estudado por Faoro), e que se estenderia seguramente até hoje mantém o patrimonialismo estatal, os olhos voltados para a especulação, o lucro e a aventura.
Para Faoro, “o poder – a soberania nominalmente popular – tem donos que não emanam da nação, da sociedade, da plebe ignara e pobre. O chefe não é um delegado, mas um gestor de negócios e não mandatário. O Estado, pela cooptação sempre que possível, pela violência se necessário, resiste a todos os assaltos, reduzido, nos seus conflitos, à conquista dos membros graduados de seu estado-maior. E o povo, palavra e não realidade dos contestatários, o que quer ele? Este oscila entre o parasitismo, a mobilização das passeatas sem participação política e a nacionalização do poder […] A lei, retórica e elegante, não o interessa. A eleição, mesmo formalmente livre, lhe reserva a escolha entre opções que ele não formulou”.

A classe social negocia. É questão de economia. O estamento é uma camada social que governa. Para Faoro, “o estamento político é aquele em que os membros têm consciência de pertencer a um mesmo grupo – qualificado para o exercício do poder – e que se caracteriza pelo desejo de prestígio e honra social”. Trazendo essas reflexões para a “cidade que pode mais”, podemos dizer que qualificado não quer dizer o melhor, mas sim qualquer um desde que faça parte do grupo. Pode ser uma marionete. Nesse sentido, a exploração sistemática de cargos – os cargos são para os homens, e não os homens para os cargos – caracteriza a apropriação do que é público, cujo objetivo é a obtenção do máximo proveito possível. Em Três Cachoeiras os “donos do poder” aperfeiçoaram: conciliação e pressão. Mas tudo bem, as cidades têm seus equívocos.